Categoria: Sustentabilidade
UKGBC apoia BNG: proteger a natureza também nos pequenos lotes
O princípio da Biodiversity Net Gain (BNG) é direto e transformador: sempre que se desenvolve um terreno, a natureza tem de ficar, de forma mensurável, em melhor estado do que antes da intervenção. Este mecanismo está a tornar-se uma das ferramentas mais eficazes para travar a perda de biodiversidade, sem bloquear o desenvolvimento de qualidade. No Reino Unido, autoridades locais, promotores e comunidades já começam a ver resultados concretos – e é precisamente por isso que o UK Green Building Council (UKGBC) veio defender a sua aplicação também nos pequenos lotes.
Porque é que a BNG funciona – e por que não deve excluir pequenos lotes
A BNG assenta numa lógica simples: qualquer projeto de construção ou reabilitação que altere o solo deve compensar, e superar, o impacto causado na natureza. Não se trata apenas de “não prejudicar”, mas sim de deixar um saldo positivo em termos de biodiversidade – mais habitats, mais árvores, mais conectividade ecológica.
Na prática, isto tem levado a um investimento real em competências e em planeamento. As autoridades locais têm reforçado equipas técnicas para avaliar projetos com critérios ambientais rigorosos. Os promotores imobiliários ajustaram os seus modelos de negócio e estão a integrar espaços verdes, sistemas de drenagem natural e soluções de conforto térmico nos seus empreendimentos. Consultores, empreiteiros, ecologistas e associações locais trabalham em conjunto para criar novos espaços verdes de proximidade que reduzem o risco de cheias, mitigam o sobreaquecimento urbano e melhoram a saúde e o bem-estar das populações.
Retirar agora a obrigação de BNG aos pequenos lotes significaria inverter um caminho de vários anos. Ao isentar todas as intervenções de menor dimensão, estaria a minar-se a base de um mercado emergente de “natureza” – um ecossistema de serviços, competências e investimento que começa a valorizar, em termos económicos, o capital natural. Ao mesmo tempo, enfraquecer-se-ia o papel das autoridades locais, que perdem um dos instrumentos mais práticos para conciliar construção e proteção ambiental, e corria-se o risco de quebrar a confiança do público nas promessas de transição ecológica.
Pequenos lotes, grande impacto: o que está realmente em causa
Os pequenos lotes não são um detalhe estatístico nem um “erro de arredondamento”. São, muitas vezes, o núcleo do pipeline de habitação e de pequena promoção, onde se viabilizam moradias, pequenas edificações e reabilitações dispersas pelo território. É nesses terrenos que se decide a qualidade do espaço urbano quotidiano: a árvore que faz sombra ao passeio, o pequeno jardim entre edifícios, o corredor verde que permite a fauna deslocar-se entre parques maiores.
São esses “bocados de natureza” que, somados, estruturam a rede ecológica dentro das cidades e vilas. Quando se retira a exigência de BNG nos pequenos lotes, elimina-se o principal estímulo de mercado para proteger e reforçar precisamente as áreas verdes de proximidade que mais influenciam a vida diária das pessoas. Desaparecem oportunidades de criar miniparques, de plantar árvores de rua, de desenhar passagens verdes que ligam bairros e melhoram tanto o conforto climático como a qualidade do ar.
A indústria reconhece este valor. O apoio ao BNG é amplo e crescente entre empresas, consultoras e organizações ambientais. Morgan Taylor, Director of Nature na Greengage Environmental Ltd., resume a lógica económica de forma clara: faz sentido para os negócios proteger e restaurar o nosso capital natural. A BNG é vista como um mecanismo simples para o conseguir. No entanto, alerta para a tentação de usar a natureza como bode expiatório para falhas passadas e atuais dos sistemas de planeamento e investimento. Responder com medidas apressadas e sem base em evidência – como recuar em compromissos já assumidos – é, nas suas palavras, “condenar o homem errado”.
No essencial, a mensagem é inequívoca: a BNG é benéfica para as pessoas, para as empresas e é crucial para os lugares que estamos a construir e a transformar.
Conclusão: integrar a natureza em cada projeto, grande ou pequeno
A defesa do UKGBC da aplicação da BNG também nos pequenos lotes é um sinal claro de maturidade do setor. A construção não pode continuar a encarar a natureza como um custo ou um obstáculo, mas sim como um ativo que aumenta o valor de longo prazo dos projetos, melhora a qualidade de vida e reforça a resiliência das comunidades face às alterações climáticas.
Proteger e melhorar a natureza em cada intervenção, por mais pequena que seja, é investir em cidades mais frescas, mais saudáveis e mais habitáveis. Em vez de recuar, o próximo passo deve ser consolidar e aperfeiçoar estes mecanismos, garantindo que estão ao alcance de promotores de todas as dimensões e que as autoridades dispõem dos meios para os aplicar com rigor.
Se trabalha na área da construção, planeamento ou consultoria ambiental, avalie como pode integrar princípios de BNG nos seus projetos – mesmo quando a lei não o exige ainda. E, enquanto cidadão, acompanhe os processos de desenvolvimento na sua freguesia e peça soluções que deixem a natureza em melhor estado do que antes. O futuro das nossas cidades constrói-se também nestes pequenos lotes.

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