Categoria: Arquitetura

A+Awards 14: Arquitectura em Contexto e a Nova Era do Craft

Os Architizer A+Awards entram na sua 14.ª edição com um foco claro: celebrar uma nova era de craft arquitectónico, em que conta menos o efeito‑espetáculo e mais a inteligência espacial, a honestidade construtiva e o enraizamento cultural. Com a data limite de candidatura fixada em 30 de Janeiro, o prémio afirma-se como uma plataforma global para projectos que trabalham o contexto com rigor, cuidado e profundidade — da aldeia rural chinesa ao bairro histórico de Mérida, passando por infraestruturas hídricas na África do Sul ou habitação pública em Maiorca.

Shenzhen: laboratório urbano para uma nova ideia de “craft”

Shenzhen, cidade-símbolo da experimentação arquitectónica na China, acolhe a celebração regional dos A+Awards e torna-se palco de três projectos que redefinem a noção de craft em arquitectura. No FW JI · The Rural Memory Museum, o atelier IARA afasta-se da ideia clássica de museu como “caixa branca” urbana e propõe um edifício que é, ele próprio, extensão da vida rural que expõe. Erguido sobre o lugar de uma antiga construção desaparecida, o museu eleva as áreas de exposição e transforma o piso térreo num alpendre público, sombreado, usado em encontros diários, festas e rituais comunitários. Materiais locais — cal, madeira, telha cinzenta — são reinterpretados com técnicas contemporâneas, onde paredes envelhecidas à mão e madeira carbonizada registam o tempo não só pela visão, mas também pelo toque.

Também em Shenzhen é distinguido o Aruma Split Garden, do estúdio indonésio RAD+ar, que reconverte um restaurante num ensaio espacial profundamente enraizado no clima tropical. Em vez de maximizar área construída, o projecto trabalha níveis desfasados, circulações diagonais e paisagem para transformar um lote compacto num espaço poroso e social. A orientação do edifício preserva árvores existentes e cria um corredor de vento que refresca naturalmente o interior, diluindo fronteiras entre dentro e fora. Estrutura, cobertura, paredes e mobiliário são pensados como um único sistema que gere luz, ar e movimento com economia de meios — uma verdadeira “ecologia do cuidado” aplicada a um programa comercial.

O terceiro destaque em contexto asiático, o Duling Educational and Cultural Centre, do projecto académico Project Mingde (Universidade de Hong Kong), mostra como a arquitectura pode ser simultaneamente infraestrutura e guardiã cultural. Enraizado nas tradições Hakka, responde ao paradoxo de uma aldeia com muita chuva mas pouca água potável, integrando a recolha, armazenamento e reutilização de água na própria forma do edifício. Uma sucessão de coberturas conduz a água das monções para um lago de lótus, antes de alimentar um sistema subterrâneo de reciclagem. As salas de aula abrem-se para espaços exteriores sombreados, diluindo limites entre aprender, brincar e conviver, e reafirmando um craft baseado na contenção, na participação e na empatia contextual.

Paris e Nova Iorque: do património à infraestrutura, sempre o contexto

Na região de Paris, o projecto 6 HPP Ses Veles Puigpunyent, em Maiorca, oferece uma nova imagem para a habitação pública: radicalmente local na forma e nos materiais. A equipa Fortuny‑Alventosa Morell Arquitectes recorre a cal, pedra, cerâmica e madeira da própria ilha, aliando técnicas tradicionais a um desempenho energético quase nulo. Cada detalhe contribui para reduzir o impacto ambiental e reforçar a economia e a cultura locais, numa arquitectura simultaneamente ancestral e avançada, feita de honestidade material e inteligência climática.

Em Cabo‑Cidade, a Aquifer Recharge Plant – Cape Flats (MAR), da SALT Architects, transforma uma estação de recarga de aquífero numa paisagem arquitectónica de resiliência. Fins de tijolo angulados filtram luz e definem uma sequência de volumes sobre uma encosta artificial, enquanto betão e tijolo são utilizados como materiais que envelhecem com dignidade num ambiente costeiro agressivo. Aqui, o craft não se limita ao detalhe visual: é a capacidade de conceber infraestruturas críticas como lugares táctilmente presentes, pensados para durar e ganhar carácter com o tempo.

No coração de Paris, o Hotel Elysée Montmartre, da Policronica, leva o craft ao limite através de uma visão material coerente: um interior quase monocrómatico, onde madeira de eucalipto — espécie invasora e pouco valorizada — é transformada em carpintaria de precisão, graças a um processo próprio de secagem a vácuo com energia solar. Do proprietário florestal à peça acabada, todo o ciclo é controlado pelo estúdio, demonstrando que o verdadeiro luxo sustentável passa por autonomia produtiva, circularidade e domínio da matéria.

Do outro lado do Atlântico, em Nova Iorque, a Gansevoort Peninsula, do Field Operations, reconverte um antigo cais de saneamento na primeira praia pública de Manhattan, com sapal, recifes artificiais e dunas sombreadas. Favorecendo modelação digital avançada para prever ondulação, marés e tempestades, o projecto conjuga resiliência climática e vida cívica quotidiana. Em Mérida, o Vistalcielo, da Veinte Diezz Arquitectos, demonstra como a reabilitação pode ser um acto de craft: betão aparente, pedra regional e grades azuis celebram a memória construída, assumindo as marcas do tempo como parte de uma narrativa de regeneração. E em Park Avenue, o Lever Club, da Marmol Radziner, reinterpreta um ícone do modernismo ao redesenhar e fabricar todo o mobiliário à escala do edifício, reunindo novamente design e construção num mesmo gesto.

Conclusão: candidatar, construir, pertencer

Dos campos de arroz chineses às praias artificiais de Manhattan, estes Projectos do Ano demonstram que a nova era do craft arquitectónico se faz de contexto, rigor e responsabilidade: construir menos, construir melhor e construir com e para as pessoas e os lugares concretos. A 14.ª edição dos Architizer A+Awards é uma oportunidade para estúdios, equipas académicas e práticas emergentes mostrarem como trabalham essa relação entre matéria, cultura e território.

Se desenvolve projectos que colocam o contexto no centro da solução, este é o momento de os partilhar com o mundo. Submeta as suas obras para publicação online e em papel antes do prazo final de 30 de Janeiro e participe activamente na discussão internacional sobre o futuro da arquitectura e do seu craft.

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